Leo Tabosa: O pernambucano que está dominando os festivais de cinema

Em entrevista, o cineasta fala sobre sua vida e o seu mais recente lançamento de ficção "Nova Iorque", que já conquista prêmios pelo Brasil

Leo Tabosa - Foto: Alex Costa










Diretor, escritor, jornalista, ator, produtor e gestor cultural. O pernambucano premiado Leo Tabosa acumula diversos projetos lançados no cinema. Entre os trabalhos, destacam-se os documentários: “Retratos” (2010), “Tubarão” (2013) e “Baunilha” (2017), além do filme de animação: “As aventuras do Menino Pontilhado” (2016), e o seu mais recente lançamento, o filme de ficção: “Nova Iorque” (2018). 

Foi na infância, que ele começou a sua amizade com o mundo cinematográfico. Gostava de brincar de dirigir meus irmãos, mesmo sem uma câmera, nos filmes de terror que escrevia. Até hoje sou fascinado pelos filmes de terror dos anos 80. No Ensino Médio entrei para o grupo de teatro amador da escola e posteriormente no TEA – Teatro Experimental da Arte, onde tive aulas com os mestres Argemiro Pascoal e Arary Marrocos”, Tabosa inicia contando. 

Ainda em sua fase de infância, Leo Tabosa conta que o primeiro filme que assistiu no cinema foi “Os Saltimbancos Trapalhões”, de J.B. Tanko. “Eu tinha cinco anos de idade na época. Foi a minha primeira memória afetiva do cinema. Passei a minha infância e início da adolescência frequentando a sala de Cinema do Grande Hotel até virar um templo religioso”.


O garoto do agreste pernambucano foi crescendo, e aos 18 anos, se mudou para Olinda, onde passou a ter contato com a cena cultural da cidade. “Fui frequentador assíduo dos cinemas de rua: Cinema Veneza, Cine Teatro do Parque e Cinema São Luiz. Ingressei na Universidade Católica de Pernambuco para trabalhar e estudar me afastando do teatro. Passei nas horas vagas a escrever cotos, romances, textos teatrais e roteiros de curtas-metragens. Mas, foi só na minha segunda graduação, Jornalismo, que pude exercitar minha paixão pela Sétima Arte, através das disciplinas práticas de fotografia, roteiro e vídeo”, explica Tabosa.
Leo Tabosa é natural de Caruaru, agreste de PE

Mas foi em um trabalho de conclusão do Curso de Jornalismo, que o seu nome foi projetado no cenário audiovisual pernambucano. O documentário “Retratos” fez estreia no 32º Festival Internacional del Nuevo Cine Latinoamericano. O longa conta a história de seis travestis que desempenham atividades profissionais, desvinculadas da prostituição, no Estado de Pernambuco. O filme mostra como a vida de cada uma delas pode ser tão comum quanto a de qualquer outra pessoa. Tudo começou, através de uma pesquisa realizada na Universidade Católica de Pernambuco, quando percebi que a mídia reforçava depreciativamente a imagem das travestis nos meios de comunicação. Neste filme, eu trouxe as travestis à luz do dia, retirando-as, em se tratando de pauta, das páginas policiais para as de comportamento”.

Com a sua paixão de infância começando a dar certo, Leo Tabosa também quis se aventurar nos livros. Em 2010, publicou o “Mandacaru Selvagem”. A sua primeira obra foi vencedora do 5° Prêmio Aldmar Bonates da Cidade de Manaus. Em 2013, lançou o infantil “As Aventuras do Menino Pontilhado” e o “Auto de Natal de Barro: O Menino e o Tambor”, em 2015.
 O seu primeiro filme de animação, “As aventuras do Menino Pontilhado”, foi lançado em 2016





Inspirado nas memórias infanto-juvenis de descobertas da identidade social do próprio diretor, o seu mais recente lançamento, “Nova Iorque”, ganhou o 20° FestCine - Festival de Curtas de Pernambuco, com os prêmios: verOuvindo de Acessibilidade Comunicacional, Melhor Atriz (Marcélia Cartaxo), Melhor Produção (Carol Correia) e o 3º lugar de Melhor Curta de Ficção. Além, de ser um dos indicados para concorrer ao Grande Prêmio do Cinema Brasileiro 2019, na categoria curta-metragem de ficção. “Nova Iorque é o meu primeiro filme em ficção. É um drama que trabalha elementos como sonhos, infância, a perda da inocência, o abandono e a importância dos momentos que marcam nossa infância”, conta.

Os atores Juan Calado e Marcélia Cartaxo em "Nova Iorque"
Foto: Alex Costa
A atriz Hermila Guedes vive a professora - Foto: Alex Costa
A atriz, Hermila Guedes, interpreta uma professora que deixou o sertão ainda jovem em busca dos seus sonhos na grande São Paulo. Depois de 20 anos de tentativas e fracassos ela volta para cuidar da sua mãe enferma. Na escola ela conhece o aluno, Leandro (Juan Calado). Uma criança dividida entre a aspereza da relação com a madrasta (Marcélia Cartaxo) e o carinho maternal que nutre pela professora. Leandro sonha em reencontrar a sua mãe que partiu com os irmãos mais velhos. O filme foi gravado nas comunidades de Santana de Cima e de Barreiros, distrito de Serra Talhada, sertão de Pernambuco.  

As atrizes Hermila Guedes e Marcélia Cartaxo foram convidadas para participarem do projeto por dois motivos: A personagem da professora foi escrito para ser interpretado pela atriz, Hermila Guedes, que considero uma das melhores atrizes do cinema nacional. Não imaginava outra pessoa no seu lugar. Já para a personagem da Madrasta, convidar a Marcélia foi uma forma de legitimar minha admiração e encantamento pelo seu trabalho. Meu primeiro contato com ela foi no filme “A Hora da Estrela”, de Suzana Amaral. Na época fiquei muito impressionado com a interpretação magistral da nossa eterna Macabéa”, conta orgulhosamente.


Projetando o cenário pernambucano e mostrando uma das realidades sociais, como desprezo e a vida no sertão, ''Nova Iorque'' vem fazendo um enorme sucesso pelo Brasil, e nos festivais afora. E todo o diretor, claro, tem suas inspirações. Leo revela que sempre busca se inspirar em suas memórias afetivas, nos filmes que assiste, além do seu dia a dia. “Como um bom observador e ouvinte estou sempre atento as pessoas que me cercam no trabalho, familiares e nas tarefas mais rotineiras como ir ao supermercado”, afirma.

O ator-mirim Juan Calado, na pele do personagem que precisa lidar com a perda da inocência e o abandono em "Nova Iorque"


Já faz alguns anos que as produções cinematográficas vem crescendo no Brasil, inclusive as independentes, algo que até década passada era raro de se ver. “Os documentários “Retratos”, “Tubarão” e “Baunilha” foram produzidos de forma independente sem apoio ou incentivo de editais municipais, estaduais ou federais de fomento à cultura. Uma importante iniciativa que movimenta e impulsiona o cinema pernambucano é o edital do Audiovisual do Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura (Funcultura). Mas, o Edital não consegue contemplar todos os realizadores pernambucanos. E quem não tem o seu curta-metragem aprovado não fica mais parado esperando o próximo edital".


Vejo surgir em Pernambuco uma nova geração de realizadores que trabalham com o Cinema de Guerrilha. Um cinema forte, expressivo e legítimo que não depende dos editais de incentivo à cultura. Essa produção independente traz uma nova oxigenação para o mercado e novas experiências no que diz respeito à linguagem cinematográfica"
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Documentário "Tubarão", lançado em 2013 - Foto: Alex Costa

Com o nome no mercado audiovisual cada vez mais forte, o pernambucano já coleciona muitas famas pelos seus trabalhos, vivenciando a admiração de pessoas em diversos lugares. Eu que estou escrevendo essa matéria, já declarei para ele que sou fã dos seus filmes. Feliz, Leo Tabosa esbanjou gratidão ao me responder, e diz que sempre está disponível para ouvir as pessoas, seja nas redes sociais ou pessoalmente. “É gratificante saber que através dos meus filmes consigo tocar de alguma forma o coração dessas pessoas. Essa é uma das motivações que me impulsionam a continuar a fazer cinema. O cinema que acredito e gosto de fazer precisa comunicar-se de forma eficaz e afetiva com quem o assiste”.

Para finalizar, ele revela que muitas novidades estão por vir ainda em 2019. Entre eles, o curta-metragem “Marie”, dirigido por ele e produzido pela Pontilhado Cinematográfico, que foi rodado no mês de janeiro deste ano, e tem previsão para ser lançado em Abril nos festivais de cinema. O filme conta a história de Mário que retorna ao sertão, depois de 15 anos, para enterrar o pai. Mário regressa para sua cidade natal, como Marie, uma mulher trans. Lá reencontra seu melhor amigo de infância, Estevão e com ele o seu passado.
Filme "Marie" gravado em Janeiro, tem lançamento previsto para Abril - Foto: Juarez Ventura


Estou trabalhando no 4º tratamento do roteiro “Alto do Céu”, um curta-metragem de ficção, que pretendo filmar de forma independente e colaborativa, ainda este semestre. Será o meu retorno ao cinema de guerrilha. Em paralelo, estou também no 3º tratamento do roteiro “Estevão”, um curta-metragem de ficção, que encerrará a Trilogia do Desejo que teve início com o documentário “Tubarão”. A proposta da trilogia é sempre contar uma história real e que essa história seja compreensível e que leve o espectador a uma reflexão, a um novo olhar sobre o tema que estou tratando. Pretendo filmar no segundo semestre”, revela com exclusividade. 

Mas os trabalhos não param por aí, além de ser o idealizador, Tabosa vai produzir a V Edição do Cine Jardim – Festival Latino-Americano de Cinema de Belo Jardim em Pernambuco, e a sexta edição da Mostra Curta Vazantes: Cinema em Comunidade no Ceará, neste ano.


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Postado por Jefferson Victor

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