Olimpíadas cerimônia

Cerimônia criativa e contagiante abre os Jogos Rio 2016

Com projeções e ideias simples, espetáculo mostrou a diversidade da cultura brasileira. Vanderlei Cordeiro de Lima acendeu a pira
Se a Cerimônia de Abertura dá o tom da competição, a 31ª Olimpíada será contagiante, com muita diversidade e uma clara mensagem de paz e tolerância. Com um espetáculo à altura da criatividade brasileira, estão abertos os Jogos Olímpicos Rio 2016.
Em um Maracanã icônico, mas com portas pequenas e impondo dificuldade para a montagem de um palco, foi necessário improvisar. Um orçamento reduzido acentuou o desafio. Com o "espírito de gambiarra", como reforçaram os diretores criativos Andrucha Waddington, Fernando Meirelles e Daniela Thomas, com pouco se fez muito. E pela reação das cerca de 50 mil pessoas presentes, funcionou.
Foto: Getty Images
O espetáculo
As luzes se apagam. O Rio de Janeiro continua lindo, diz a música de Gilberto Gil, e “aquele abraço” é enviado ao mundo. No telão, cenas da cidade olímpica são levadas a mais de três bilhões de pessoas. 
» Dezenove modalidades estreiam neste sábado no Rio de Janeiro
Voltam as luzes. A arte geométrica de Athos Bulcão é a inspiração para o início da cerimônia: 250 folhas de papel metálico ganham movimento manipuladas por mil pessoas, ao som de “Samba de Verão”, na versão de Marcos Valle. As peças viram grandes almofadas que são agitadas, preparando a contagem regressiva. A batucada invade o estádio. O público vibra junto.
O símbolo da paz que é projetado no palco. Reiventado, ele se transforma em uma árvore e leva uma das principais mensagens da cerimônia: a nossa paz com o planeta.
A música popular brasileira assume o comando da cerimônia: acompanhado por pequena orquestra, Paulinho da Viola é o responsável pelo hino nacional, de forma suave, acústica e encantadora. 
Origem e urbanização
Em uma imensa projeção, micro-organismos se movimentam. É a representação do início da vida. Do cinza, aos poucos passa-se para o verde das florestas. O efeito da chuva e dos pássaros fica por conta do público, que aprendeu a técnica com Regina Casé momentos antes da cerimônia. Borboletas amarelas moldam um gigante, anunciando a vinda dos indígenas ao palco e ocas gigantes são formadas com o uso de elásticos. Complementado pela a projeção de luzes, o cenário arranca aplausos.
Foto: Roberto Castro/ brasil2016.gov.br
Mas os índios não ficam sozinhos por muito tempo. Caravelas se aproximam: são os europeus chegando. Os africanos que se tornaram escravos por tantos anos no país também ganham lugar na cena. Aos poucos, a floresta vai dando lugar a plantações de cana. Entram ainda árabes e orientais e a mistura de raças se coloca na cerimônia.
A criação das cidades ocorre com mistura de projeção 3D e coreografia.  A altura dos prédios é desafiada por acrobatas no palco. Mas quem enfrentou mesmo as alturas na história brasileira e mundial foi Santos Dumont: seu famoso 14Bis surge no palco, formado pelas leves caixas de pano e bambu, que antes simbolizavam prédios. Uma versão instrumentalizada de “Construção” de Chico Buarque toma conta do estádio. De forma surpreendente, o avião de pano levanta voo. Outra melodia conhecida surge para acompanhar o passeio noturno do 14Bis pela cidade olímpica: o “Samba do Avião”, de Tom Jobim.
Do Rio para o mundo
Desde Helô Pinheiro, muitas foram as Garotas de Ipanema. No espetáculo, a canção entrou com os passos de Gisele Bundchen No piano, Daniel Jobim, neto de Tom, dá ainda mais charme ao momento. E a modelo não só desfila no centro do Maracanã para o mundo. Seu rastro recria os traços de Oscar Niemeyer e vemos, no palco, obras como a Catedral de Brasília. Nas arquibancadas, as palmas acompanham a estrela.
28690538522_ca5b9f568c_o.jpg
Foto: Roberto Castro/ brasil2016.gov.br
Vozes diversas
Surgem as batidas do funk e, em um lado do estádio, entra Ludmilla para  cantar uma letra que há 20 anos começou nos morros e invadiu a cidade: o rap da felicidade. “Eu só quero é ser feliz, andar tranquilamente na cidade onde eu nasci”, reforça a cantora.
No outro extremo do Maracanã, surge Elza Soares com o “Canto de Ossanha”, de Baden Powell e Vinícius de Moraes, fazendo referência ao candomblé e ao som das religiões afro-brasileiras.
De Elza, o passeio pela diversidade da música brasileira chega a Zeca Pagodinho e Marceo D2, juntos e misturados. O que se vê na sequência é uma à contribuição dos negros à cultura brasileira e uma mensagem de empoderamento feminino, por meio das vozes de duas rappers: Karol Conka e MC Soffia . A capoeira também entra em campo.
Disputas e cores
Neste momento, um tema mundial ganha destaque: a necessidade de tolerância. Um grupo de Maracatu e um de Bate-Bolas dividem o palco. A princípio separados, logo se mesclam, formando um mosaico colorido. O estádio treme. Regina Casé reforça a mensagem de paz ao estádio. Jorge Bem Jor relembra ao mundo o “País Tropical”. De Madureira, vem o Baile Charme inspirando 1.500 bailarinos. O público levanta-se e entra no clima. O finalzinho foi no canto a capela, num momento em que foi difícil segurar os arrepios.
GettyImages586318782.jpg
Yane Marques, medalhista olímpica do pentatlo, foi eleita em votação popular para carregar a bandeira na cerimônia. Foto: Getty Images
Ameaça
É hora de refletir sobre a relação com o planeta. Imagens preocupantes de devastação são mostradas no telão. No centro do estádio, um menino perdido em um labirinto representa o mundo quase sem saída. O aquecimento global, o derretimento das calotas polares e a chance de sumiço de cidades costeiras são relembrados.  
Mas não é só o prenúncio do caos. O espetáculo propõe soluções, que passam pela conservação das florestas, pelo replantio das árvores.  A saída simbólica do labirinto e o encontro de uma mudinha de árvore é acompanhada por Fernanda Montenegro, interpretando o poema “A Flor e a Náusea” de Carlos Drummond de Andrade. O sistema de som anuncia a formação da “Floresta dos Atletas”: cada um receberá uma muda que deverá ser plantada no Parque Radical, em Deodoro.
Desfile dos atletas
Como de praxe, a Grécia, palco dos primeiros Jogos da história, abre o desfile dos atletas. Na sequência, entram os países em ordem alfabética, considerando o idioma do país-sede, que fica para o final. Para a colocação das mudinhas durante a cerimônia, foram criadas estruturas espelhadas que se movimentam pelo estádio. 
Reforçando a mensagem de diversidade, cinco transexuais estão entre os voluntários que trazem, em bicicletas, as placas com a indicação de 206 países, mais o inédito time de refugiados e a equipe de atletas olímpicos independentes, que disputarão os Jogos pela bandeira do COI. Coube a Lea T guiar o time da casa.
Canadá, Chile, Espanha – tendo Rafael Nadal à frente-, Estados Unidos – com Michael Phelps de porta-bandeira -, Itália, Japão, México, Palestina e Portugal foram algumas das nações mais aplaudidas. Destaque também para a entrada do time olímpico de refugiados, ovacionado pelo público. Mas nada que se compare à vibração do momento em que foi anunciado o país-sede, ao som de "Aquarela do Brasil".
As estruturas espelhadas e giratórias, já com as mudinhas, transformaram-se em árvores, estas deram origem aos cinco aros olímpicos, todos verdes. Milhões de papéis verdinhos se espalham pelo estádio.
Boas-vindas
O presidente do Comitê Organizador Rio 2016 e do Comitê Olímpico do Brasil, Carlos Arthur Nuzman, deu as boas-vindas aos atletas e ao mundo.
“Vamos celebrar juntos, como juntos trabalhamos para fazer esses Jogos Olímpicos, os três níveis de governo. Para fazer os primeiros Jogos da América do Sul. Trabalhamos sete anos numa jornada de superação e paixão pelo esporte. Lembrem-se, os filhos do Brasil não fogem à luta, são fortes. Quem não nos conhece, duvida, mas o Rio está orgulhoso de ser a capital olímpica do mundo. A cidade Maravilhosa, em noite de gala, é o cenário perfeito. Hoje, o mundo é carioca”, disse.
Thomas Bach destacou que este é o momento da cidade maravilhosa e que o COI sempre acreditou na capacidade dos brasileiros. Também lembrou a criação do time de refugiados, ratificando o espírito de solidariedade, paz e tolerância dos Jogos.
“Nesse mundo olímpico, somos todos iguais. Nesse mundo olímpico, os valores da nossa humanidade são mais poderosos que as forças que tentam nos dividir”, afirmou Bach.
Crianças guiando pipas – que antes foram apresentadas a pequenos quenianos que não conheciam o brinquedo – correm pelo estádio. Entre elas, está o homenageado Kipchoge Keino, presidente do Comitê Olímpico do Quênia, por ter contribuído para o fortalecimento da paz por meio do esporte.
Em seguida, o presidente em exercício, Michel Temer, declara abertos os Jogos Olímpicos.
Bandeira Olímpica
Um time campeão carrega a bandeira olímpica: os atletas e ex-atletas Joaquim Cruz (atletismo), Emanuel Rêgo (vôlei de praia), Marta (futebol), Sandra Pires (vôlei de praia), Oscar Schimdt (basquete) e Torben Grael (vela), além da juíza Ellen Grace e de Rosa Celia Pimentel, fundadora da instituição Pró-Criança Cardíaca.
Bicampeão olímpico, participando da sexta edição dos Jogos, o velejador Robert Scheidt profere o juramento dos atletas. Martinho Nobre, do atletismo, faz o juramento dos juízes. Adriana Santos (basquete) profere o dos técnicos.
28718437261_660ce82b07_k.jpg
Vanderlei Cordeiro de Lima é o único brasileiro que foi condecorado com a medalha Pierre de Coubertin. Foto: Roberto Castro/ brasil2016.gov.br
Gran finale e a pira
Wilson das Neves traz o samba para o espetáculo e relembra nomes consagrados do ritmo, enquanto uma criança de oito anos mostra que sabe desde cedo sambar. Gilberto Gil, Caetano Veloso e Anitta comandam “Sandália de Prata”, de Ary Barroso, enquanto representantes das doze escolas de samba do grupo especial se espalham pelo estádio. A bateria que ecoou no Maracanã dispensa palavras: é uma velha conhecida do mundo por meio do carnaval.
A chama olímpica é anunciada. Palmas esperam Gustavo Kuerten. Com um sorriso imenso, Guga adentra o estádio. Dá uma parada, mostra o fogo ao estádio, emociona-se.  É aplaudido até o momento em que Hortência recebe a chama. A rainha do basquete prossegue, o suspense aumenta. No canto do estádio, está Vanderlei Cordeiro de Lima. Ele é o último, o que sobe as escadas. Ainda dá uma paradinha. Sorri. Acende a pira olímpica, que é elevada. Por trás dela, surge uma giratória escultura de Anthony Howe, para encerrar a cerimônia com chave de ouro – o mesmo que Vanderlei merecia em Atenas 2004 e ficou para um outro momento da história. Talvez transformado no brilho da chama que agora estará acesa no centro do Rio de Janeiro, em frente à Igreja da Candelária, enquanto os Jogos.
Carol Delmazo, brasil2016.gov.br 
Compartilhe on Google Plus

Postado por silvioromerojornalista

0 comentários:

Postar um comentário

Adicione seu comentário sobre a notícia